Brazil:Bauru(pt)

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Tel Amiel
Educational Psychology and Instructional Technology, University of Georgia


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O estado de São Paulo é conhecido como o motor econômico do país. As maiores companhias possuem seus escritórios e negócios nas principais ruas da capital do estado, que também é chamada São Paulo. Ela é a terceira maior cidade do planeta com 15 milhões de habitantes. Enquanto a capital é conhecida como a “selva de pedras” devido ao grande número de prédios, o interior do estado é conhecido por uma vida mais bucólica. Levando em consideração o estado de São Paulo, as grandes e pequenas cidades ocupam tanto o lado da costa leste como a parte oeste do estado. A maioria das regiões do estado possui uma ou duas cidades que funcionam como comércio local e centros industriais.

Figura 1. A cidade de Bauru vista do topo de uma colina. Mais de uma dúzia de prédios podem ser avistados no horizonte. (todas as fotos de Bauru foram tiradas pelos autores).
Figura 1. A cidade de Bauru vista do topo de uma colina. Mais de uma dúzia de prédios podem ser avistados no horizonte. (todas as fotos de Bauru foram tiradas pelos autores).

Bauru é uma dessas pequenas cidades. Com uma população de aproximadamente 315 mil habitantes, torna-se pequena comparada com a capital São Paulo. Mas em comparação com outras cidades aos arredores, Bauru é considerada grande. Situada quase no centro geográfico do estado, a localização privilegiada de Bauru tem ajudado muita a cidade a se tornar um centro comercial. Um fator adicional que tem contribuído para seu crescimento como um centro comercial é sua distância de 350 km da cidade de São Paulo. Essa distância é considerável, levando em consideração as condições de tráfego quando se chega perto da capital, e os altos custos de combustível.

Escolas

Bauru possui 59 escolas com educação básica. Vinte e seis destas são escolas estaduais de ensino médio que atendem aproximadamente 13.300 alunos. Quatorze são escolas estaduais de ensino fundamental, que atendem aproximadamente 30.500 alunos. As outras 11 são escolas municipais e possuem 5.600 alunos (INEP, 2003, 2004).

Salas de Computadores e Capacitação

O governo estadual tem realizado investimentos para criar laboratórios de informática nas escolas. As escolas públicas no estado de São Paulo, estão sob a responsabilidade dos governos estaduais e municipais. Na condição de estado mais rico da nação, suas escolas públicas receberam grandes investimentos para o desenvolvimento da informática na educação. Como prioridade de investimento apresentada pelo PROINFO, foram criados Núcleos Regionais de Tecnologia Educacional (NRTE), oferecendo suporte para escolas estaduais e municipais. Um desses NRTEs está localizado na cidade de Bauru, supervisionando a instalação e manutenção de laboratórios de computadores em escolas de ensino fundamental e médio. Uma pesquisa realizada em 1996 com todas as 79 escolas públicas de Bauru, indicou que 81% (43 escolas) não possuíam laboratório de informática . Mais de 80% dos professores dessas escolas indicaram falta de conhecimento em aplicativos computacionais, tais como: planilhas eletrônicas, processadores de texto e banco de dados, entre outros (N= 939); enquanto 59% indicaram não conhecer nada sobre tecnologias educacionais e apenas 1% dos respondentes afirmou ter utilizado algum tipo de software em sala de aula (N = 990) (Amiel, Morgado, Morgado & Rodrigues, 2005).

Quando solicitados a indicar o principal motivo da falta de uso de tecnologias educacionais, uma grande parte indicou a falta de tempo (32,9%) e capacitação (30,4%). Enquanto a maioria indicou a falta de computadores como sendo a maior problema em 1996 (47,8%). Contudo, essa situação tem melhorado, com a instalação de novos computadores e laboratórios (hoje 27 escolas estaduais possuem laboratórios de informática, contra 10 em 1996).

A Delagacia de Ensino local (DE), onde está localizado o NRTE, organiza programas para ajudar na formação de professores em tecnologia e informática. Juntamente com a UNESP (Universidade Estadual Paulista) e uma empresa privada, a DE também organiza projetos como o “Aluno Monitor”, no qual os alunos de escola pública (geralmente da oitava série do ensino fundamental até a segunda ano do ensino médio) aprendem a fazer manutenção em computadores e ajudam a manter o laboratório de informática de suas escolas operando continuamente. Junto com o projeto “Aluno Monitor”, a UNESP tem desenvolvido um suporte pedagógico com alunos de cursos de licenciatura que trabalham com professores no desenvolvimento de planos de aula, webpages, e outros recursos para encorajar o uso da informática na educação. A utilização da informática na educação ainda é escassa, por motivos similares àqueles do escopo nacional. A maioria dos professores, que eu observei, que estavam trabalhando juntamente com UNESP, nunca haviam utilizado um computador com propósitos educacionais na escola antes, embora haja computadores na escola há 4-5 anos. Mesmo dentro do escopo destes projetos educacionais, a “tecnologia” sempre significa a utilização de computadores e softwares, e pouca atenção é dada para novas técnicas de ensino-aprendizagem.
Figura 2. Foto de um dos dois laboratórios de computadores disponíveis na Delegacia de Ensino. Essa foto mostra um grupo de 12 alunos trabalhando com computadores como parte do projeto Aluno Monitor da UNESP. Esses alunos são de turmas avançadas, aprendendo a programar em Macromedia Flash..
Figura 2. Foto de um dos dois laboratórios de computadores disponíveis na Delegacia de Ensino. Essa foto mostra um grupo de 12 alunos trabalhando com computadores como parte do projeto Aluno Monitor da UNESP. Esses alunos são de turmas avançadas, aprendendo a programar em Macromedia Flash..

Estudo de Caso: Christiane

Christiane é uma aluna e tem dezoito anos. Ela nasceu em Bauru, São Paulo.Ela é uma pessoa extrovertida e comunicativa; de fato, ela descreve-se como sendo aberta e amigável. Ela é magra, possui uma pele morena, cabelos encaracolados e olhos marrons. Ela sempre se veste com estilo e mostra uma grande preocupação com a sua sua aparência e seu guarda-roupa.

Ela se considera católica praticante (embora sua mãe não o seja). Quando ela era mais jovem, ela era evangélica. A igreja exigia muito dela, delimitando o que não era permitindo usar como batom, brincos, saias curtas e outras roupas. Ela agora freqüenta a igreja católica, que eu parcialmente atribuo a sua formação fora da escola. Durante nossos encontros, ela sorria frequentemente e sempre aparentava estar de bom ânimo.
Figura 3.  Christiane e seus amigos da escolal (ela é a garota da direita, usando uma saia rosa).
Figura 3. Christiane e seus amigos da escolal (ela é a garota da direita, usando uma saia rosa).
Atualmente, ela cursa o segundo ano do ensino médio em uma escola estadual com aproximadamente 1.215 alunos que cursam da quinta série do ensino fundamental a terceira série do ensino médio. A escola chama-se Escola Estadual Professor Francisco Alves Brizola. Está localizada em um bairro de classe média baixa, aproximadamente 10 minutos do campus universitário UNESP - Universidade Estadual de São Paulo e de um hospital estadual.

As ruas são pavimentadas, e a maioria das casas são contruídas com tijolo. Conversando com professores e alunos universitários na UNESP, muitos descrevem o bairro como sendo perigoso, e um lugar onde se deve ter cuidado durante a noite. A escola possui um laboratório de informática, um laboratório de ciências, uma pequena biblioteca, e uma quadra de esportes coberta.
Figura 4.  Essa foto mostra a classe dela (segundo ano do ensino médio), onde um grande grupo (25 ou mais) alunos posa de maneira desorganizada para a fotografia. Todas as mesas estão rabiscadas e a parede do fundo foi pintada recentemente (ela foi vandalizada com tinta de spray).
Figura 4. Essa foto mostra a classe dela (segundo ano do ensino médio), onde um grande grupo (25 ou mais) alunos posa de maneira desorganizada para a fotografia. Todas as mesas estão rabiscadas e a parede do fundo foi pintada recentemente (ela foi vandalizada com tinta de spray).
Ela atualmente mora com uma de suas duas irmãs, seu padrasto e sua mãe. Seu pai mora em outro lugar (os pais nunca foram casados e separaram-se antes dela nascer), e uma de suas irmãs mora em Belo Horizonte, aproximadamente 12 horas de ônibus a nordeste, no estado de Minas Gerais. Christiane e seu padrasto são os reponsáveis pelo sustento da família, embora ela não saiba (ou não quis me dizer) qual a profissão de seu padrasto. A irmã que mora com ela, um ano mais nova, foi sorteada com uma bolsa de estudos para cursar o ensino médio na Universidade do Sagrado Coração (USC), uma instituição católica privada com seis mil alunos da cidade de Bauru. Como parte de seus serviços, a universidade oferece ensino médio para pessoas carentes. Sua mãe não trabalha fora de casa por causa de problemas na coluna; como Christiane descreve, sua espinha dorsal é como um “S”.
Figure 5. A fotografia à direita mostra Christiane e seus colegas no laboratório de computadores da escola. A escola possui apenas 15 computadores, um tanto utilizados.
Figure 5. A fotografia à direita mostra Christiane e seus colegas no laboratório de computadores da escola. A escola possui apenas 15 computadores, um tanto utilizados.
Eu pedi para Christiane descrever um dia típico para ela. Suas manhãs são dedicadas a ajudar com as tarefas domésticas como lavar louça e roupas, mas ela enfatiza que ela não sabe cozinhar e, algumas vezes, sua mãe cuida disso. Assim que termina essas tarefas, no período da tarde, logo começa a trabalhar. Ela trabalha em casa fazendo artesanato como pintura, ponto de cruz e biscuit.

Ao invés de possuir um emprego fixo, ela recebe encomendas de comerciantes e/ou pessoas conhecidas. Em sua última encomenda, ela levou dois meses para acabar: ela bordou 50 toalhas pequenas para a loja de sua cunhada. Diferentemente de muitas jovens de sua idade, Christiane aprendeu técnicas profissionalizantes através de um projeto social coordenado pela USC. Por seis anos, ela participou de vários cursos, incluindo aulas de flauta, informática, bordado, corte-costura, entre outros.
Figura 6.  Foto do lado de fora da Escola Estadual Brizola. A foto mostra os muros pintados artisticamente (trabalho realizado pelos alunos) e subsequentemente pintados por cima (trabalho dos vândalos). A entrada é um grande portão de metal.
Figura 6. Foto do lado de fora da Escola Estadual Brizola. A foto mostra os muros pintados artisticamente (trabalho realizado pelos alunos) e subsequentemente pintados por cima (trabalho dos vândalos). A entrada é um grande portão de metal.
Ao final do dia, ela toma banho e vai para a escola, de ônibus ou a pé. A escola abrange diversos bairros da redondeza, como o bairro onde Christiane mora, aproximadamente 25 minutos de caminhada até a escola. Quando questionada a descrever seu bairro, sua primeira resposta foi: “não possui asfalto!”, seguido de “mas tem água e esgoto” e “as casas são feitas na sua maioria de madeira”. Dentre uma hierarquia socioeconômica (pobre <-> rico), Christiane descreve-se enfaticamente como sendo “pobre”, mais em função do bairro onde mora, que contrasta com o ambiente de “classe média”, onde sua escola está localizada.
Figura 7. Dentro da Escola Estadual Brizola: A foto mostra um pequeno prédio à direita e um grande conjunto de prédios à esquerda. À esquerda está localizada a administração, laboratório de informática e a biblioteca.
Figura 7. Dentro da Escola Estadual Brizola: A foto mostra um pequeno prédio à direita e um grande conjunto de prédios à esquerda. À esquerda está localizada a administração, laboratório de informática e a biblioteca.
Christiane iniciou seus estudos no “Brizola” em 2003. No ano anterior, ela estudou em outra escola, a Escola Estadual Professora Vera Campagnani, mas essa não oferecia cursos noturnos, assim, ela acabou transferindo-se para o “Brizola” a fim de estudar no período noturno. As aulas começam às 19h10min e encerram 22h45min, quando ela volta de ônibus para sua casa (uma viagem de 10 minutos). Ela comentou que fazer amigos nessa nova escola é um processo difícil e descreveu alguns episódios onde outros alunos a colocariam pra baixo, chamando a nova garota da escola de “menina da favela”. Não é de se admirar que ela considere as pessoas desse bairro de “classe média”: diferente, mais “fechadas” e menos amigáveis que em sua outra escola.
Figura 8. Dentro da Escola Estadual Brizola: uma pequena área de recreação e um restaurante.
Figura 8. Dentro da Escola Estadual Brizola: uma pequena área de recreação e um restaurante.

Ela se lembra do tempo em que estudava no “Vera”, que era mais próximo da sua casa, e ela o descreve como sendo muito mais liberal. Por exemplo, ela relata que no “Brizola” tudo possui trancas, o que faz com que ela se sinta como uma prisioneira. De fato, parte da escola, onde as salas de aula e a quadra de esportes estão localizadas, sempre está trancada – antes, durante e depois das aulas, de certa forma por motivos de segurança (como um outro aluno diz – ele prefere ter os portões trancados, a ter alguém entrando na escola armando para efetuar um roubo). Durante os intervalos entre as aulas, os alunos têm que permanecer dentro da área escolar, sem poder sair de suas dependências. Quando foi pedido que ela criticasse sua escola (em pontos positivos e negativos), Christiane hesitou e não fornecer muitos exemplos concretos de nenhum dos dois pontos. Ela disse que não gostava da forma como a administração da escola faz a comunicação com seus alunos, na maioria das vezes verbalmente, ao invés de avisos ou comunicados escritos para poder levar para casa (da forma como acontecia no “Vera”). Ela também ressaltou que a vice-diretora é uma pessoa muito legal, mas não conseguiu lembrar o nome da diretora (“a diretora quase não vai nas salas de aula”). Uma reclamação interessante feita por Christiane é em relação à pichação por toda escola, particularmente dentro dos banheiros. Por causa desse problema, a escola instalou câmeras dentro dos banheiros, informação que foi confirmada por outros alunos.

Figure 9.  Algumas fotos da vizinhança onde a escola está localizada: uma casa de classe média baixa com muros inacabados,  grades de metal branca e um fusca no meio da garagem.
Figure 9. Algumas fotos da vizinhança onde a escola está localizada: uma casa de classe média baixa com muros inacabados, grades de metal branca e um fusca no meio da garagem.
Figura 10.  A segunda foto mostra uma casa de classe media com o carro trancado na garagem.
Figura 10. A segunda foto mostra uma casa de classe media com o carro trancado na garagem.

Em relação às salas de aula, Christiane diz gostar do fato delas possuírem ventiladores, mas não mencionou nenhum outro aspecto. Uma vez que sua sala de aula não possui portas e as carteiras são extremamente gastas, eu esperava reclamações mais substanciais, as quais ela não se preocupou em mencionar.

Quando não está na escola, Christiane diz que seu passa-tempo favorito é dançar. Agora que tem dezoito anos, sua mãe é uma pouco mais flexível em deixar ela sair de noite (Sextas-feiras e Sábados). Ela gosta de dançar música lenta, sertanejo e forró, e ela também comentou detestar Rap.

Futuramente, Christiane esperar fazer um curso de secretariado e ir para a universidade. Embora suas matérias favoritas sejam Português e História, ela gostaria de se ingressar numa universidade pública e se torna uma Psicóloga ou Professora. Quando questionada sobre o trabalho ideal, ela protamente respondeu o seu trabalho: “artesanato!”, descrevendo com entusiasmo como ela decora a casa de amigos com balões. Próximo ano, Christiane irá retornar para a sua antiga escola “Vera”, onde ela tem um maior número de amigos e continuará com o seu trabalho de artesanato.

Referências

Amiel, Morgado, E. M., Morgado, M. J. L., Rodrigues, G. (2005, March). Can you help me? Student monitors as catalysts for teacher exploration of computing in public school programs. Full paper presented at the International Conference of the Society for Information Technology & Teacher Education, Phoenix, AZ.

INEP. (2003). Censo escolar . Retrieved September 2, 2004, from http://www.inep.gov.br/basica/censo/

INEP. (2004). DATAESCOLABRASIL . Retrieved September 1, 2004, from http://www.dataescolabrasil.inep.gov.br

Sobre os autores

Tel Amiel possui um título de mestre em “Communication Studies e Human Computer Interaction” pela Virginia Tech e na época em que escreveu o artigo, estava cursando PhD em “Instructional Technology” pela Universidade da Geórgia. Ele trabalha na comissão de revisão do Jornal de Multimídia Educaional e Hipermidia (JEMH AACE) e é membro do comitê da Conferência Mundial em Multimídia Educacionais, Hipermidia, e Telecomunicações (AACE). Seus interesses são tecnologias de comunicação e informação, educação multicultural e democrática, e a filosofia da tecnologia. Trabalha atualmente em um projeto colaborativo entre as cidades de Bauru em São Paulo, e em Fortaleza, Ceará no Brasil pelo um convênio financiado pela FIPSE-CAPES. Tel já morou nos EUA, China, Brasil, e Austrália.

Citação

APA Citation: Amiel, T. (2006). Brazil:Bauru. In M. Orey, T. Amiel, & J. McClendon (Eds.), The web almanac of educational technologies. Retrieved <insert date>, from http://www.waet.uga.edu/

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